Um casal caminha pela calçada do cemitério, de madrugada. Baratas também andam por ali. Com nojo, a mulher atravessa a rua, o homem vai atrás. Baratas, baratas, baratas que passam embaixo da porta e entram nos móveis dos antiquários. Você abre uma gaveta e ela pode estar ali: uma barata. “Sempre tento evitar que um cliente leve um susto com uma barata”, fala Daisy Magalhães, 47, há 16 anos dona de duas lojas de móveis antigos na rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo). A rua anda infestada pelas indesejadas baratas. Em dias e noites de forte calor, a situação piora, contam moradores e os donos dos tradicionais antiquários da descida.

Tem gente que acha que as baratas da Cardeal andam cada vez mais numerosas. “É muita barata. E de vários tamanhos: crianças, adolescentes e adultas”, conta Daisy. Outros comemoram que, antigamente, já foi muito pior. “Hoje está melhor. Eu tinha uma lanchonete. Uma pessoa estava comendo e de repente entrava uma voando, parecia uma andorinha. Era um desfile de baratas”, lembra Lomanto Pereira, 54, hoje dono de dois antiquários. Todos concordam que as baratas da Cardeal são históricas e têm uma origem: saem dos túmulos do cemitério São Paulo, que toma parte da rua. “Moro na Cardeal desde que nasci. Aqui sempre teve muita barata, vem tudo desse cemitério aí. Todo dia tem que jogar veneno. É uma briga”, explica a aposentada Irene Bruno, 80, no portão de sua casa, que fica bem na frente do cemitério.

COMO LIDAR?

A Daisy Decorações também dá de frente para a entrada do cemitério. Por isso, sofre mais. Com o verão, a loja apostou numa nova receita: além das faxinas quase diárias, um pouco de gasolina nos cantos dos móveis e do antiquário. “Baratas não gostam do cheiro”, diz Daisy. Segundo o biólogo Marcelo Freitas, 50, diretor da Associação dos Controladores de Vetores e Pragas, gasolina até espanta os insetos, mas o combustível não é recomendável. “É inflamável, e o cheiro vai ficar por muito tempo.”

“Cemitério tem tudo o que barata precisa: é um lugar ermo, com frestas, lixo e dejetos humanos. A prefeitura que deveria cuidar disso, não os moradores”, diz o biólogo. A prefeitura diz que está cuidando. “A dedetização de todos os 22 cemitérios da cidade está em dia”, argumenta. Afirma, ainda, que em breve fará uma licitação para escolher “empresas qualificadas no controle de pragas”. Enquanto isso, Eugênia Souza, 37, dona de um antiquário e moradora da rua, leva vários sustos por dia. “Jogo veneno. De manhã aparece um monte morta, outras andam meio bambas.”

OLHA OUTRA AÍ

“Eu não mato, tenho nojo. Ando pulando barata na Cardeal. Mas já teve uma que bateu no meu peito”, conta Leandro Farias, 33, que trabalha em uma corretora perto do cemitério. No portão de casa, a aposentada Irene Bruno lembra de quantas já matou na vida. Baratas, baratas, baratas… “Ai, que nojo. Olha, olha aí, uma passando bem aí no seu pé. Credo. Deixa ir. Vamos mudar de assunto?”

Fonte: Folha de São Paulo