Um dos principais estudiosos sobre dengue do país, o pesquisador Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz, avalia que não há ainda nenhum dado ou pesquisa que mostre relação entre a crise hídrica e o avanço da doença.

Pós-doutor em entomologia (estudo de insetos) pelo Institut Pasteur, de Paris, Lourenço é otimista em relação ao surgimento de uma vacina para a dengue até o ano que vem, mas diz que as ações contra o mosquito precisam continuar com a população combatendo possíveis criadouros dentro de casa.

Folha – Por que o recrudescimento da dengue neste ano?

Ricardo Lourenço – Os motivos ainda não estão claros e desconheço alguma pesquisa comparando dados de longo prazo, nas mesmas áreas, que mostre as razões. Dengue envolve três fatores: o comportamento do mosquito, o ambiente e a população.

Quando há alterações em um desses pontos, em quantidade ou qualidade, como o tipo de vírus em atuação e o total de pessoas em uma área que nunca enfrentou dengue, por exemplo, gera-se uma epidemia. Por isso, controlar o mosquito e reduzir sua ocorrência é tão importante porque desfavorece os elementos que potencializam a doença.

Há mais ocorrências de algum tipo específico do vírus?

A circulação do tipo 1 no Brasil acontece desde a década de 1980. Então, houve um percentual grande de pessoas imunizadas em algumas áreas para esse tipo.

Mas acontece que existe, ao longo dos anos, mudanças de população nas cidades. Ela cresce, desloca-se, recebe imigrantes. Isso gera uma quantidade maior de pessoas sem imunidade e aumenta-se a chance de circulação do vírus novamente. Desde 2008, constata-se a reentrada do tipo 1 em vários locais onde ele já havia feito estragos no passado. O tipo 4, entrou no Brasil, em uma epidemia isolada ocorrida em Roraima e, depois, sumiu. Reapareceu, em 2011. De lá para cá, ele tem varrido o país, que é praticamente todo suscetível a ele.

Existe relação entre a crise da água que vive São Paulo e a proliferação de casos?

Não há nada que comprove isso. O Brasil tem muitas áreas que não têm fornecimento regular de água e que as pessoas fazem armazenamento em casa. Nem por isso, elas tiveram epidemias.

Água não significa aumento de foco. É necessário uma análise mais profunda. É possível que haja 300 casas com recipientes com água e nenhuma larva e uma casa com piscina descuidada onde se encontram vários focos. A mensagem que é preciso frisar é: cuide da sua casa, evite os focos. Não há problema nem é crime guardar água, mas evitando que o mosquito tenha contato com ela.

O comportamento do clima tem peso na proliferação?

Ao longo dos anos, tivemos alterações de períodos mais secos, mais quentes e chuvosos como está sendo este ano, mas dizer que, agora, isso está causando algo inédito é difícil. O que se sabe é que, quando a temperatura média semanal é elevada, ultrapassando os 22°C, aumenta-se o risco de transmissão de dengue, em qualquer época do ano, porque a multiplicação do mosquito fica mais rápida e ele consegue passar o vírus em menos tempo.

A vacina chega em 2016?

A expectativa é muito boa. Há várias sendo testadas e com respostas ótimas, mas o desafio é enorme porque ela terá de ser eficiente contra os quatro sorotipos. Existem dificuldades para o tipo 2, mas estamos bem. Porém, não dá para apostar numa só forma de profilaxia e controle. É bom esperar a vacina, mas é necessário nunca deixar de cuidar da proliferação do mosquito, que pode transmitir a febre amarela e chikungunya.

O mosquito está mais resistente que no passado?

Só em epidemias muito importantes hoje recomenda-se o uso de aspersão de inseticida, porque o Aedes aegypti está mais forte aos nossos arsenais em alguns locais do país. O que se deve fazer com intensidade é o trabalho de base, que é debelar os focos em casa, ajudar a combater o mosquito na vizinhança e cobrar que o poder público faça seu papel na limpeza urbana.

Fonte: Folha